sábado, novembro 29, 2008

A vida não é a Disneylândia

Algumas pessoas simplesmente não nasceram sob as bênçãos da Fada Madrinha, pronta pra dar uma mãozinha se você receber um convite pro baile do Príncipe Encantado. Modernamente, em vez da varinha de condão, a Fada te daria um cartão de crédito, sem limite, pago pela Providência Divina, seja ela quem for.

Mas a realidade reservou outras coisinhas pra sua vida. 

Você está lá, olhando pra tela do computador, com aquelas roupitchas batidas que duraram quatro ou cinco estações, pagas em 12 parcelas, sem juros, naquela loja de departamentos, num shopping da cidade. Você trabalhou o dia todo, das 8h às 18h, pegou o busão e decidiu que era hora de mudar o seu estilo, de ter alguns segundos de 'prazer em conhecer' ou 'de mulher pra mulher', sabe? 

A loja está lotada, até porque é dezembro e o 13º (milagrosamente) veio em dia. E você lá, desviando das crianças e das mães, das avós, dos pais, das irmãs e das tias das crianças, louca de medo de levar aquela blusinha preta, a única tamanho G de todas as araras da loja, mas que passa R$ 15,00 do seu estranguladíssimo orçamento natalino. Pés inchados do calor, as panturrilhas latejando como se você tivesse acabado de escalar o Aconcágua, a mente tentando calcular o estrago que duas calças, um vestidinho, cinco calcinhas, um sutiã, e a linda blusinha preta vão fazer no seu extrato bancário.

Mas é Natal e você resolveu que, apertando ali e aqui, você consegue parcelar em 12 vezes de novo, até o próximo ano. Na saída da loja, rasgada e amassada, depois de atravessar um mar de gente e esperar meia hora na fila do caixa, indo em direção à saída mais próxima da parada de ônibus, você vê um par de rostos conhecidos entre a gigantesca massa humana.

De repente, aquela sensação incômoda invade seu pensamento feito o sabre de luz do Darth Vader. Você estava quase ensaiando um sorriso amarrotado de saudação àqueles rostos conhecidos, mas sente murchar a intenção das mandíbulas. Então você lembra do motivo torpe e infame que te impede a aproximação. 

De fato, você não galgou a escadaria do sucesso, antes de completar 25 anos como toda a pessoa bem nascida deve fazer. Não arrumou um marido e não tem filhos como todo mundo... sinal evidente de algum tipo de perversão incompetência, só pode!  Aos 15 anos, em vez de debutar ou conhecer a Disney, você preferiu uma bicicleta... aos 20, precisou trancar a matrícula na faculdade porque faltou grana. Naquele dia, teve que ouvir da 'melhor' amiga - casualmente, filha dos rostos do shopping: 'aprende de uma vez que você não pode ter tudo na vida'. Logo você, que nem queria ter tudo na vida, só desejava uma palavra de apoio e solidariedade por precisar adiar o sonho de se formar e trabalhar, como todo mundo...
Então você apelou ao crédito educativo, e com a ajuda de duas pessoas queridas, conseguiu terminar a graduação, com quase 30 anos... mas a que preço? A carreira escolhida não abriu portas e lá foi você dar duro e batalhar fora do mercado.

"Você se incomoda de emprestar a sua mesa? É que o filho do Dr. Fulano, que está no primeiro semestre de Administração,  vai trabalhar conosco, como Anali$ta-$ênior , e vamos precisar da mesa... sabe como é, o Dr Fulano é um cliente de pe$o..."

Então, como vice-auxiliar-do-assistente, você começa a pagar as contas, mas logo descobre que precisa acumular uns cinco meses de salário, indo e voltando a pé todos os dias do trabalho  - e sem almoço - para tapar os buracos no banco e continuar pagando o tal crédito, com juros cada vez mais inexplicáveis. E quase morre de angústia, stress e aflição quando a cobrança vai bater na porta de quem estendeu a mão e CONFIOU em você. 

Hahahahahaha! Sua caloteira-mal-sucedida! Que vergonha!
E ainda por cima tem a ousadia de continuar pobre e sem recursos para quitar as parcelas daquela dividazinha de pouco mais de 40 mil reais, fora os jurinhos??? 
Meu deus, que tipo de pessoa você é sem carro próprio, sem apartamento próprio, sem prêmios, sem parentes de pe$o, como o Dr. Fulano???
Como é que as pessoas podem gostar de você, se nem pai-próprio você tem?
O que? Você também nunca quis ser a Cinderela? Pelas barbas dos Sete Anões, onde é que nós vamos parar?

Que roubada, minha filha, descobrir que a Providência Divina jamais pagou as contas de qualquer ser-humano-comum-que-odeia-o-Mickey, que o Príncipe Encantado é pura balela e que a Fada Madrinha é a Bruxa Malvada que não perdoa os inadimplentes quando soam as doze badaladas da meia-noite. Pior, você tenta calçar o sapatinho de cristal pra dar no pé, e descobre que ele é dois números menor... triste fim!

De volta ao shopping, você recolhe o sorriso amarfanhado e amarelo e disfarça pra não ser reconhecida pelos seus fiadores do crédito escolar. Pega o rumo da porta de saída e vai viver a sua vidinha simples, mas honesta. Não, você não leu mal, não! Você é honesta e não uma usurpadora da caridade alheia, embora a caridade alheia pense que sim. 
Você só fez escolhas erradas, caiu, levantou e foi em frente. Você é imensamente grata a todas as pessoas e situações que apareceram no caminho. Você foi, é, e sempre será capaz de aprender com os tropeços da estrada e, sim, você é perfeitamente capaz de ter tudo o que quiser da vida, e mais um pouco! Ainda que a vida não seja a Disneylândia.

Tudo muda, o tempo passa e as pessoas idem. 
Só ficam aquelas que realmente fazem a diferença. 
Por causa e apesar de tudo. 
E você sabe disso melhor do que ninguém.
Se ninguém entender, problema deles.

Um comentário:

Larissa Bohnenberger disse...

Puta merda, Carolina... sem carro próprio, sem apartamento próprio, sem prêmios, sem parentes de pe$o e sem pai próprio... não sei como é que eu ainda me relaciono contigo, sinceramente!