segunda-feira, agosto 27, 2007

O inferno já é aqui!

O crucifixo.
De Milly Lacombe.

É prudente que se reconheça o erro. Porque, a bem da verdade, errar, erramos todos, cedo ou tarde. E eu errei ao escrever um precipitado texto que criticava a primeira-dama. No texto, decretei que ela não fez absolutamente nada pelo país na função de esposa do presidente. Disse, inclusive, que tinha conseguido a façanha de ser menos expressiva do que Roseanne Collor. Mas eu me enganei a respeito de Dona Marisa Letícia: soube hoje, pelos jornais, que ela foi comer um Big Mac durante o Mc Dia Feliz - aquela campanha anual promovida pelo Mc Donald’s que destina toda a renda da data a crianças com câncer. Dona Marisa Letícia não apenas esteve presente a uma lanchonete da rede americana durante o dia especial, como tratou de recomendar que sua assessoria de imprensa divulgasse o esforço. E tem mais: nossa primeria-dama comeu um sanduíche inteiro, mesmo sabendo que o Big Mac tem centenas de calorias, e um nível de gordura não recomendado pela saúde pública (que, aliás, na gestão de seu marido, vai muito bem, obrigada). Mais ainda: na saída, levou um Big Mac para o presidente. É realmente tocante o gesto. E eu, que quinze dias atrás escrevi que Dona Marisa Letícia não fazia nada pelo país, tive que engolir essa – sem coca-cola.
Isto esclarecido, vamos ao que interessa.
Repousa na parede da sala dos super-heróis da justiça brasileira, os ministros do STF, um crucifixo. E são tantos os absurdos que vieram de lá nos últimos três dias que ninguém se deu ao trabalho de comentar: o que faz um crucifixo na parede da sala do Superior Tribunal Federal? Não somos um Estado laico? Decisões judiciais não deveriam ser completamente desconectadas de doutrinas religiosas? O que faz, então, um crucifixo na parede?
Claro que, para quem se lembra do ex procurador geral deste país, o sr. Claudio Fonteles, cristo pregado na cruz e depois na parede da sala do STF não chega a surpreender. Claudio Fonteles carregava – e certamente ainda carrega – no peito uma enorme corrente com um crucifixo. E foi esse cristão ativo que, em seu último ato como procurador geral, apresentou, diante do Supremo, uma ação direta de inconstitucionalidade contra a Lei de Biossegurança (aprovada pelo Senado, numa época em que o Senado parecia ainda trabalhar, e não apenas fingir investigar a integridade de seu presidente). Na ocasião, a argumentação do procurador geral não poderia ter sido menos laica: “a Lei ofendia a inviolabilidade da vida, considerando-se que a vida começa na fecundação”. Mas péra lá: a vida começa na fecundação para os cristãos. E a crença deles é tão verdadeira quanto a de um ateu, a de um agnóstico, a de um budista … enfim, exatamente porque não há como se determinar o que é ou não é verdade quando o assunto são crendices é que uma crendice não pode ser usada como argumento judicial. Estado e religião jamais deveriam ser misturados.
Para lembrar, a lei se refere a pesquisas científicas com células-tronco - aquelas muito novas e que ainda não possuem características que as diferenciem de uma célula da pele ou da de um músculo - e que podem ser usadas para gerar outro órgão. Hoje, as pesquisas no país se restringem às células da medula óssea e do cordão umbilical, que são capazes de originar apenas alguns tecidos do corpo, não um órgão. Quantos brasileiros poderiam se beneficiar da pesquisa com células-tronco? Você? Seu filho? Um amigo? Todos nós conhecemos pelo menos uma pessoa que teria a chance de voltar a viver decentemente se as pesquisas pudessem ser feitas.
Assim, uma atitude puramente religiosa barrou a lei. E fica a pergunta: Que vida o ex procurador geral e todos os seguidores da opinião católica pretendem proteger: a que nunca vai existir de fato e de direito, ou a que já existe e está carente de saúde? Ah, o mundo cego da fé, esse lugar tão carente de respostas que façam sentido.
Por tudo isso, ver um crucifixo pregado na parede da sala do STF é para deixar o brasileiro com mais de dois neurônios de cabelo em pé. Troca de mensagens, combinação de votos, suspeita de barganha política envolvendo o resultado desse julgamento, tudo isso é de apavorar. Mas quando, descansando lá no fundo da sala do STF, paira Jesus na cruz, é porque estamos todos, de fato, no inferno. Assim, seja o que Deus quiser.

Milly Lacombe é cronista do Blônicas.

3 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Quando eu digo que o inferno é aqui as pessoas acham que estou brincando...

Tita Aragón disse...

Eu li, reli, e ainda não consigo comentar este post.. me apunhalou com um tridente em brasa!

Lilian Barbosa disse...

Oi Larissa! Que bom que o meu blog agradou. Sinta-se à vontade para linká-lo, e eu farei o mesmo. =)

Impressionante o seu blog, mais precisamente essa nova postagem.
De fato vivemos em um estado laico (teoricamente), mas sem dúvidas a Igreka Católica exerce ainda muito poder na sociedade brasileira. E é justamente nesse ponto que os "grandes líderes" procuram bater. Sabendo da vulnerabilidade do povo brasileiro em relação às crenças, muitos usam esse artifício como instrumento de auto-promoção.
É... ainda temos muito o que evoluir.
Interassantíssimo o seu ponto de vista. Realmente nos leva a pensar. Passarei aqui mais vezes.
Parabéns =)