quarta-feira, julho 25, 2007

Um pouco de leveza

Eu gosto muito do trabalho do Jorge Furtado. Ontem ao ver Saneamento Básico, seu novo filme, ficou a certeza de estar ali um diretor que sabe como contar uma história, mesmo partindo de um assunto simples, diria até banal. Uma fossa. Com humor, ele consegue fazer uma crítica tão sutil à ineficiência desse nosso País, à politicagem, à burocracia e aos recursos tão mal alocados que só nos resta mesmo é rir da nossa cara de otários, pacíficos diante de tanta merda. No caso do filme, literalmente.
O Homem que Copiava continua sendo o meu preferido entre as realizações do Furtado. A mistura de quadrinhos, um personagem principal maravilhosamente bem feito pelo Lázaro Ramos e uma inesperada mudança de ângulo, fazem a história fluir, ganhar ritmo e te prender frente à tela. Nada daquele desconfortável mexe daqui, cruza a perna, pro outro lado, e assim vai crescendo o ritmo de acordo com a irritação com o que se vê. Mais o menos o que me aconteceu na segunda quando fui ver Paris, te amo. Película que esperava com ansiedade e que se revelou – como um todo – uma coisa fraca e sem graça. Vale por algumas histórias que chegam a beirar a poesia, uma outra que encanta pelo humor e mais uma ou duas que retratam a solidão e as crises de um relacionamento de uma forma delicada. Mas, como um todo? Ruim. O trailer é bem melhor. Aliás, por que os trailers, ultimamente, são tão melhores e mais interessantes do que o filme por completo? Fiquei eu mais rabugenta ou caímos todos em uma repetição das mesmas histórias que parece que estamos vendo sempre a mesma coisa? Sei lá, talvez um pouco dos dois. Outra hora falo mais de Paris, te amo.
Em tempos tão pesados, nada como rir. Uma sessão de quase uma hora e meia de risadas intercaladas com gargalhadas mesmo. Fazia tempo que não via um filme que provocasse esse feito. Mesmo sendo bem previsível e tendo a Fernanda Torres interpretando Fernanda Torres em Os Normais (sim, acho que ela encarnou tanto a neurótica da Vani que está incorporado nela), atrapalha o andar da carruagem. O Wagner Moura tá perfeito, assim como o Lázaro Ramos e a Camila Pitanga. Falam tanto do Mais estranho que uma ficção, da sua metalinguagem e inovação do roteiro. Eu acho ele apenas pretensioso e perdido. Ei gente, vocês viram a Rosa Púrpura do Cairo? Um milhão de vezes melhor. Mas, em se tratando de metalinguagem, o Saneamento Básico dá uma aula e de quebra uma debochada sobre o “fazer cinema”. A história é mais ou menos assim – eu não gosto de entregar o filme antes – uma pequena comunidade quer fazer uma fossa pra acabar com o fedor do esgoto. Pra variar, saneamento básico, assim como segurança, saúde e educação não são prioridades para os nossos governantes. Mas, há uma grana pra um filme. O dinheiro certo pra construir a tal fossa. Com esse argumento simples nasce o roteiro. E algumas pessoas começam a pensar na história, a bancar os atores e criar os figurinos. O mostro da fossa do Wagner Moura é ótimo. A metalinguagem dita antes é que eles fazem um filme dentro de um filme. Com atuações canastríssimas e hilárias.
No meio disso tudo, se desenrrolam histórias paralelas como a do casal neurótico e briguento (mas mesmo assim engraçado e de fácil identificação com o públçico) da Fernanda Torres e do Wagner Moura, da irmã vaidosa, do pai que não acredita mais nas mudanças, nas rebugentices entre velhos vizinhos. Tramas que enriquecem o todo.
Resumo da ópera: quer desopilar? Vai ver Saneamento Básico. Diversão garantida ou... sei lá, vai deixar de ser mau humorado!

7 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Anotada a indicação!
Gargalhadas são sempre bem vindas!
O problema é que como a minha risada é muito escandalosa, as pessoas me olham de cara feia, no cinema... eheheh!
Bjs!

Tita Aragón disse...

Ai, como eu gosto de ler (e apreciar) as sugestões da minha amiga subterrânea Trevas!
Claro que eu morro (sem trocadilhos, plííísss) de inveja desse papo de metalinguagem, porque existe uma loira dentro de mim, que nunca vai saber escrever sobre essas viagens cinematográficas. Definitivamente eu não sou cabeção que nem a Trevas e entendo basicamente quase nada de cinema, mas uma coisa me deixou tremendamente inquieta com este post...
COMO PODE A PESSOA MAIS CHARMOSAMENTE MAL-HUMORADA QUE EU CONHEÇO TERMINAR UM TEXTO COM UM CONSELHO TÃÃÃÃÃÃÃÃÃÕ CONTUNDENTE?

Hahahahahahahaha! Me tira o tubo!

Trevas disse...

Porque o que é o mundo sem uma incoerência!!!! Como escreveu uma amiga dia desses: Penso, logo mudo de idéia.
hahahaha
E de mau humor eu entendo! E como nem o meu resistiu, quero ver se aparece alguém mais mau humoradfo que eu no mundo!

Larissa Bohnenberger disse...

Acabo de voltar do cinema! Chorei de rir a sessão inteira! A 'atuação' do Bruno Garcia no filme dentro do filme é HI-LÁ-RIA!!!
E o Lázaro Ramos basta aparecer no filme que já causa uma sessão de gargalhadas! Ele não precisa nem falar nada, é só aparecer!
Excelente indicação!

wagner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
wagner disse...

Oi, cheguei ao teu blogue por indicação da Jacqueline, que trabalha comigo no jornal O Sul (o melhor do Rio Grande do Sul). Também escrevi no meu blogue (http://portadordeausencias.blogspot.com) um texto sobre o Saneamento Básico. Apesar de termos visões diferentes sobre o filme, gostei do teu texto, e isso prova a abrangência da obra do furtado.
é isso aí. dá uma visitada no meu blogue quando der. ;)

Trevas disse...

Oi Wagner.
Fui conhecer teu blog também. Muito legal. Concordo contigo quando falas sobre um filme poder ser uma uma declaração de amor ao cinema sem precisar ser militante ou chato ou entrar na linha do cult e ser para poucos.
E que bom que um filme consiga despertar tantos pontos de vistas e opiniões. Discussões de idéias é aqui com a gente mesmo.
Valeu pelo post. E agradece a Jacque pela propaganda! hehehe