quarta-feira, dezembro 06, 2006

A morte do patinho

Nunca fui daquelas que chamam a atenção pela beleza.
Nem agora, muito menos na adolescência.
Aliás, adolescer é uma das minhas preocupações quanto à possibilidade da reencarnação. As outras são matemática, TPM, ficar menstruada, observar cuidadosamente a genética da família onde vou nascer e não ficar com o cabelo armado em dias de chuva.

Fui uma criança bonita, apesar dos óculos fundo-de-garrafa, mas aí, tragicamente, lá pelos 11 anos, fui atropelada por um caminhão hormônios e virei um pastel amorfo que devorava enciclopédias e dicionários, e era viciada em documentários, livros, palavras cruzadas e filmes...

Se eu não era bonita, pelo menos precisava ser inteligente... era minha auto-estima que pedia isso, mas aí... também lá pelos 11 anos, peguei a primeira das muitas recuperações de matemática no colégio. A mesma matemática que me fez rodar na 8ª série no primeiro grau e no 3° ano do segundo... e lá fui eu repetir o ano todo, duas vezes, por causa daqueles malditos números...

Putz... que desastre... eu não era nem bonita, nem inteligente o suficiente pra não ter pesadelos com equações, hipotenusas e seus catetos!

Minha adolescência foi um caos medonho: aqueles peitões crescendo, que me obrigaram a deixar o ballet aos 13 anos (ou O Lago dos Cisnes viraria O Poço das Antas, se eu continuasse lutando contra a força da gravidade toráxica bilateral...) , cólicas intermináveis, pêlos inconvenientes, tsunamis hormonais e uma terrível sensação de inadequação completa na galáxia.

Sempre fui a melhor amiga, a melhor ouvinte, a melhor conselheira, a mais engraçada, a que não era páreo na disputa pelo menino mais lindo do colégio, a que sobrava nas festinhas da turma, escondida atrás dos óculos, encolhida dentro da roupa, sorrindo de boca fechada pra ninguém perceber os dentões amontoados nas arcadas, brigando pra ver qual saía pra fora primeiro.

Voltando à beleza, é claro que tive que alterar o chassis ao longo dos anos pra que eu pudesse me olhar no espelho sem cair na risada ou em um abismo de depressão. Pequenos ajustes, eu diria... nada comparado ao que as celebridades fazem hoje com botox, silicone, fio de ouro ou lipoescultura. No meu caso, tirei os excessos, fiz geometria e balanceamento.

Um dia, pela primeira vez, fiquei cara-a-cara com aquele que seria o grande amor da minha juventude. O universo todo parou naquela tarde de 3 de agosto de 1989. Até aquele dia, eu não tinha percebido que a história do Patinho Feio era absolutamente verdade. Eu era o Cisne do lago, e não a Anta entalada no poço! E minha fada madrinha não era uma bondosa velhinha com uma varinha mágica! Era o príncipe encantado em pessoa, com todo aquele 1,90m de altura e um belíssimo par de coxas, entre outros predicados impublicáveis!

Hoje, aos 38, não voltaria no tempo. A não ser que eu pudesse voltar como sou hoje.
Eu reencontraria o velho grande amor dos meus 20 e tantos anos, que desenterrou das profundezas abissais da adolescência, a mulher que eu sempre fui sem saber...

...mas o que me preocupa ainda é a tal da matemática e o raio da reencarnação...

2 comentários:

Trevas disse...

Puta que o pariu, que texto lindo. Parece que voltei pra minha adolescência, principalmente, na parte dos óculos fundo de garrafa que me acompanharam até a faculdade.
Jogue a primeira pedra quem nunca foi atropelado pelo caminhão dos hormônios.

por acaso disse...

muito bom menina, entrei em transe, compadeci-me da hedioneidade da jovem, achei-a num beco sem saida... e, de repente ei-la tranformada e linda, de felicidade e amor. tenho inveja de você, que descreve o conflito jovem com os nao muito diferentes caracteres pessoais avultados na mente ora ingênua, ora incrédula, ora transcendente, ora mutante.

Pela grandeza de sua imaginação fertil, na criação de um algo imaginariamente teratoloógico que, apesar de não te conhecer não acho que de forma alguma poderia ter sido voce