segunda-feira, julho 03, 2006

Festa estranha com gente esquisita



Se é verdade que existem outras vidas, então eu fui uma vaca atolada, uma puta do inferno que aprontou o que deu (e vendeu), valendo por umas duas eternidades e meia.

Deve ter sido assim que tudo aconteceu:

Eu era mãe ou pai de alguém, deveria ter dezenas de amantes, bebia pra caramba, e não valia nada. Devo ter abandonado ‘consorte’, filhos, caído dentro de uma garrafa de vinho vagabundo e morrido de alguma doença venérea, sozinha, agonizando até o último suspiro.

Aí entra a reencarnação...

Para meu castigo, nasci filha e neta dos filhos e consortes que eu sacaneei; meu pai e minha avó paterna (nesta vida). Meu pai ainda era meu ídolo, quando eu tinha três anos. Ele foi embora no dia 24 de julho de 1972. Minha irmã tinha 11 meses. Lembro da cena: eu, sentada num balcão qualquer do aeroporto (talvez da Varig) e ele dizendo que voltaria na segunda-feira pra me buscar. E eu esperei na porta de casa dias a fio...

Reapareceu dois anos depois, e eu nem lembrava da cara dele.

Há uns 20 anos, minha irmã ligou pra casa da mãe do meu pai e a velhota disse que não sabia quem estava falando, pois não conhecia ninguém com aquele nome. Talvez por que minha irmã tenha o nome da minha avó materna; talvez porque minha mãe expulsou a velha maligna pela porta dos fundos de casa, quando ela apareceu, um belo dia, às 8h da manhã, falando mal da nossa família.

Pois bem, caro leitor, se você chegou até aqui, deve estar achando tudo muito bizarro, como uma novela mexicana dublada pelo SBT. Acertou!

No capítulo da última terça-feira, o pai do meu pai morreu e nós só ficamos sabendo no episódio de sexta, pois uma prima - papa-defuntos - da minha mãe, leu o nome do presunto no obituário do jornal. O velho morreu na madrugada de terça feira, dia do aniversário do meu meio-irmão, que está na Grécia.

Ninguém nos avisou. Nenhum telefonema comunicando o ‘passamento’ do moribundo... a explicação é de que foi tudo muito rápido pra poupar a viúva (negra), que está muito triste.
Sei...

Que a nossa presença é indesejada ficou claro. Mais do que isso é impossível!
Ficaria mais digno se nos comunicassem, com o desejo de privacidade explícito, afinal, o mesmo sangue (inacreditavelmente) corre nas nossas veias. Que espécie de gente é essa que faz questão de afastar filhos e netos e os ignora como desconhecidos?

Ok, confesso que não fiquei comovida com a perda daquele velhinho de 92 anos, que eu mal conheci. Não mesmo. A morte do Bussunda, por exemplo, me tocou muito mais (veja você!).
Em todos esses anos, perdi as contas de quantas vezes ficamos, eu e minha irmã, esperando por um pai que combinava de nos levar pra passear e não aprecia, não avisava e não dava a mínima... se a gente ligava, ele mandava dizer que não estava e sumia por tempo indeterminado.
Então, aos 67 anos, com os olhos lacrimosos, ele verbaliza que foi uma bosta de pai. Mas não muda. Algumas pessoas gostariam de ter pelo menos uma chance. Ele teve todas, mas a arrogância é mais forte, vai além da imaginação.

Então eu cansei...

2 comentários:

Trevas disse...

Vou te contar. Eu sempre achei uma bobagem essa história de "sangue do meu sangue". APA. Meus amigos são muito mais família do que muitos que se proclamam parentes. Se um dia eu precisar de ajuda, sei que deles não virá nenhum apoio.
E trouxa desse cara ai que se diz pai que não teve o privilégio de conhecer - e conviver - com essa pessoa tudo de bom que tu é.

Tita Aragón disse...

Já pensou como a minha psiquiatra vai se divertir na sexta-feira?
Ela vai acabar pagando pra eu ir lá, pode crer!