quarta-feira, março 29, 2006

jornalismo fast food

"...Neste quadro recessivo, que inquieta patrões e assusta empregados, é natural o surgimento do "jornalismo de resultado" e seus profetas – os executivos moderninhos que prometem redações baratas, revistas idem, amenidades muitas e reflexão zero. Apostam no padrão do leitor que consome mas não pensa, no perfil Homer Simpson que se satisfaz com o atendimento às suas demandas meramente consumistas, do estilo shopping center que simboliza o templo de devoção da classe média e seus periféricos. Para este tipo de leitor, com tanto a comprar e tão pouca disposição para ler, o jeito é o modelito USA Today, o jornalão fast food destes tempos midiáticos para uma leitura rápida, calórica e saborosa como um Big Mac. Assim, nossas semanais sofrem cada vez mais a tentação de atender a este novo mercado emergente, abdicando de sua função primordial: o texto mais consistente, mais abrangente, para refletir e ponderar sobre a salada de informações frenéticas e redundantes que o dia-a-dia de jornais, rádios, TVs e internet enfia goela abaixo do cidadão.
A revista, que devia ser o oásis de reflexão para ajudar o pobre leitor a atravessar esta overdose semanal de notícias e mais notícias, abdica de seu papel e mergulha no turbilhão do jornalismo rápido e rasteiro. A estética vale mais do que a essência. A forma se impõe ao conteúdo. O texto curto confina os detalhes. A foto, espelhada e escancarada, come os espaços de uma informação cada vez mais estrangulada. Tudo induz uma leitura ligeira, quase leviana, para não afrontar o relógio e a agenda do nosso leitor tão apressado. E, em vez de procurar saciar a fome de informação e conteúdo, a revista sucumbe e se submete à magra dieta jornalística que ela diz ser exigência do leitor moderno. Alguém está enganando alguém neste jogo..."

Trecho de artigo publico no Observatório da Imprensa, no qual o autor - o jornalista Luiz Cláudio Cunha - contesta não apenas a IstoÉ mas a forma como se faz jornalismo hoje em dia. Uma nova -
velha - visão pra quem acha que matéria tem que ser curta, supérflua e mecânica porque ninguém quer ler, e que a ética não lá uma coisa tão importante. Mais no http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=374IMQ004.

2 comentários:

Tita Aragón disse...

Eu já vi este filme...

Sombria disse...

também li este texto, é excelente - e horrível ao mesmo tempo. É uma pena constatar que justamente na era em que temos mais recursos para prestar boa e bem fundamentada informação, nos deparmos com uma imprensa dirigida por idiotas que mentem, omitem, e que tem mais compromisso com o setor comercial do que com o leitor. E eu ainda quero (?) ser jornalista!