sexta-feira, setembro 11, 2009

Da série escrevi e nem lembrava...

Paixão não se explica

Quando eu nasci, a Seleção Brasileira ainda ansiava pelo tricampeonato, e Pelé jogava futebol. Quando eu nasci, existiam duas Alemanhas, a Oriental e a Ocidental, separadas por um muro. A Tchecoslováquia era uma única nação, a Rússia ainda se chamava União Soviética, e o Brasil vivia um de seus piores momentos políticos com os militares no governo. Tanto, que o ano em que eu vim ao mundo foi imortalizado pelo Zuenir Ventura, no livro “1968, o ano que não terminou”. Quando eu nasci, o Brasil da bola queria alcançar a terceira estrela.

E foi assim que aconteceu. Ele (o Tri) veio um ano e um dia depois que o astronauta Neil Armstrong pisou na Lua, dando um passo pequeno para um homem, mas gigantesco para humanidade. Coisas do século passado, assim como eu.

21 de junho de 1970, Estádio Asteca, na Cidade do México. Brasil 4 X 1 Itália. Não lembro disso, mas, curiosamente, lembro do episódio da Lua. Provavelmente porque, para uma menina de quase dois anos, a Lua fosse uma coisa muito mais interessante do que a Seleção Brasileira, que não dava para ver da janela.

Também não faço idéia da escalação da Seleção Canarinho naquele dia de junho, muito embora, alguns nomes estejam gravados em alguma particular gaveta das minhas reminiscências esportivas. Mas experimente perguntar quem é meu diretor de cinema favorito, o título do último livro do Paul Auster, ou quem eu acho que matou a Taís, na novela das oito...

Para aquilo que eu não domino, procuro as respostas. Para situações agudas de aperto, recorro ao Google, que quase sempre salva!
Félix. Carlos Alberto. Brito. Piazza e Everaldo. Clodoaldo e Gerson. Jairzinho. Pelé. Tostão e Rivelino.

Zagalo foi o técnico (este eu não precisei buscar na internet) e Carlos Alberto Parreira, que 36 anos mais tarde, perderia a chance do tão esperado Hexa, era um modesto preparador físico. Claro, só eu não sabia desse detalhe, com certeza.

Dos dois aos 12 anos, vivi nos anos 70, década final da ditadura militar no Brasil, os Anos de Chumbo. Talvez por isso, o verdadeiro patriotismo do povo ficasse latente... e só era extrapolado na demonstração afetiva pelos talentosos brazucas em campo, jogando futebol como jamais se jogou: um verdadeiro show de bola.

Em criança, eu não entendia muito bem aquela adoração verde-amarela. Hoje, continuo sem entender. Futebol, para mim, ainda é sinônimo de domingo em que alguém com um radinho de pilha, colado na orelha, ouve um narrador falando na velocidade da luz, antes do interminável grito de gol, rasgando o silêncio preguiçoso da tarde. Indignação para uns, festa para o adversário.

Não, futebol não é a minha praia. Nem religião, nem política. Detesto barulho, foguetes, buzinas, sirenes, e multidões me deixam em pânico. Sou capaz de ficar horas contemplando a lua, em uma noite de verão, ouvindo Beethoven ou os Beatles, mas não me vejo dentro de um estádio lotado, xingando a mãe do juiz que não deu o pênalti.

Admiro e respeito paixões alheias porque acredito que coisas inexplicáveis precisam ser respeitadas. Como um gol do seu time, aos 45 do segundo tempo, que garante o título de campeão. Momento único que entra pelos olhos e fica ali, a vida toda, dentro do coração.


Porto Alegre, 14 setembro de 2007.

Um comentário:

Larissa Bohnenberger disse...

Lembrava-me deste teu texto, não é mesmo? Bem, em 1970 minha santa mãezinha tinha 12 anos e eu não era nem um projeto. Portanto não lembro de nenhuma destas coisas aí. Só vim ao mundo bem depois!
Mas aquilo que me motivava a freqüentar um estádio lotado durante a minha adolescência, não pertence mais a este corpo. Não sei se era paixão, mas com certeza tão fugaz quanto, já que hoje em dia trato futebol com indiferença... tenho outras prioridades!
Bjs!